O QUE FAZER PARA SER UM BOM EGBONMI?!

Sou adepto ao candomblé e minha casa é da nação Ketu. Completei, em 2013, sete anos de santo e estou prestes a completar às minhas obrigações no Ilè Asé no qual fui iniciado. Me tornarei um Egbonmi em breve. Isso me deixa feliz e triste ao mesmo tempo, pois tenho tanta coisa para realizar e contribuir com meu terreiro, junto ao meu Bàbálòrísá e meus irmão de santo (pessoas que amo em escalar e proporções diferentes).

Algumas noites, antes de ir dormir, me questiono: Como ensinar uma pessoa recém iniciada a ter amor ao seu orísá?, a tratar as questões ligadas ao seu Ilè Asé com importância e dedicação? Como lesionar Asé a quem não está presente nos momentos importantes, como o Ose ou às obrigações anuais dispostas no calendário? Como se faz para ensinar responsabilidade a quem está iniciando numa religião com tantas lições de comportamento e conduta como, por exemplo, a hierarquia?

Nem sempre consigo respostas para essas perguntas e muitas outras surgem no dia a dia, dentro e fora do terreiro, principalmente para aquele que tem uma vida dedicada a religião e a espiritualidade.

No livro Meu Tempo é Agora, Mãe Stella de Òsóòsí (Ode Kayode) Ìyálorísa do Ilè Àse Òpó Àfonjá fala da importância do período de Abianato (onde o pré iniciado, nomeado Abiyan, experimenta a rotina e as regras de comportamento e conduta da casa), entre outros assuntos relevantes para a sobrevivência de uma comunidade religiosa.

Alguns irmãos meus, pelo menos os mais novos, não passaram pelo período de Abiyan e acho que podem ter se arrependido de estarem iniciados. São tantas desculpas, descaso, talvez descrença com a espiritualidade e as suas consequências, ou simplesmente inexperiência de vida, pois a maioria nem chegou aos 21 anos de idade.

Como devo chegar para minha irmã de Yemoja e verbalizar de maneira convincente a graça que ela teve ao ser escolhida por esse Orísá? Pontuar quais são as especialidades dessa energia no nosso Ilè? Encontrando uma forma e passando esse conhecimento será que isso vai modificar o comportamento cotidiano dela?

Já o irmão de Òsóòsí como o convencer que as características do orísá se misturam com o temperamento dele? Já que ele chegou no Ilè com suas concepções, ou preconceitos formados. Uma coisa difícil de modificar é a educação domestica. Como será que os pais dele tratavam questões ligadas à espiritualidade? Existia algum treino de como manipular o canal mediúnico? E se essas lições existiram, será que foram dadas de forma convincente? Como compensar essas lacunas deixadas pela família de sangue?

Espero ter paciência e tranquilidade para não hesitar na hora de compartilhar meu Àse através do verbo. Verbo esse bem colocado, estruturado, pensado e de forma coesa, contendo a minha emoção. Mostrar em ações e no meu comportamento as coisas que são válidas na formação da sociedade religiosa, com suas variações.

O que mais vale num Ilè Àse é a doação, a gratuidade. Muitas pessoas de fé, com amor no coração, sem preceitos rituais cooperam com a sua energia dentro das possibilidades. Um Ilè Àse é sempre uma escola. Devemos dar gratuitamente, sem nenhuma intenção. Primeiro se dá, para depois, às vezes muito depois, receber (STELLA, 2010 p. 138).

Nossa religião é feita de sutilezas. Passar o conhecimento adiante faz com que ensinamentos novos cheguem. É uma ciclo que nunca termina. Nem quando renascemos no Àiyé paramos de aprender. Mas manter o awo do nosso Ilè Àse é de suma importância.

Hoje em dia os adolescentes e os jovens em geral são curiosos e afobados por demais. E com o livre acesso a uma gama infinita de informações dispostas na internet fica mais difícil filtrar o conteúdo correto do deturpado. Mas qual é a veracidade das informações on line? Será que a receita de uma feitiço, disponível numa Home Page qualquer serve para todos os tipos de pessoas? Será que não é necessário um preparo para manipular aqueles ingredientes mágicos? E o respaldo? Qual é a diferença, para a espiritualidade, de um Adosu ou iniciado não Adosu para um simpatizante com a religião sem nenhum tipo de iniciação?

Todos querem ter o poder de modificar a vida dos demais à sua bela vontade. E as vezes os desejos são vis. Ínfimos de grandeza e significado, desejos desnecessários.

São muitas questões que posso levantar. É só parar, analisar o comportamento humano e escrever. Falando em ser humano acho importante valorar as ciências sociais que tentam analisar e catalogar o comportamento da mente humana. A psicologia é um campo mágico e infinito das ciências humanas – uma área que será sempre incerta, aproximada e mutante.

Como pode uma pessoa (dentro do processo de iniciação) jurar com tanta empáfia obediência ao seu orísá, respeito a seus irmãos de santo, consideração e gratidão ao seu Bàbálòrísá e seus Egbonmi e se comprometer em zelar pelo awo daquela casa e fazer exatamente, ou parcialmente o oposto? Atos de revelia gratuita, sem um pesar na consciência, sem ser responsabilizado pelo orísá (pelo menos aparentemente). Depois que as coisas começam a dar errado ficam rogando a clemência do orísá querendo que sua situação seja resolvida num passe de mágica. É inquietante assistir casos similares a esse.

Um Egbonmi certa vez me disse: “Não escolhemos nosso orísá, é ele que nos escolhe. Nós mais velhos não colocamos orísá na cabeça de ninguém. Só limpamos o canal mediúnico e ajustamos a sintonia da comunicação. Zelamos para que ela, a comunicação, melhore e aprimore cada vez mais”. É um ensinamento belíssimo e valioso. Meu mais velho me passou o Àse dele e eu recebi aquele ensinamento com toda a atenção.

Mas não penso em desistir, pois tenho uma missão dada pelo orísá patrono da minha casa (Òsóòsí). Devo muito respeito a ele. E acredito que a flecha dele está apontada para meus inimigos, assim como está pronta para auxiliar os amigos.

Que assim seja. Ìyá Sure fun o!

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~ por Luiz Ribeiro em 15/03/2013.

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