Rompendo crisálidas, processo de criação, transformação e reestruturação

Quero contar um pouco das minhas experiências durante o período de confecção do meu primeiro livro reportagem.

O desafio de escrever um livro foi proposto no final do ano passado, 2009, quando eu cursava o quarto semestre do curso de comunicação social com habilitação em jornalismo. Produto que serviria de avaliação central do semestre seguinte (5°).

No início a idéia de ser autor de uma obra literária não ficcional era inebriante. Temi por muitas vezes antes de encarar o desafio. Me juntei a outras duas participantes que comigo formaríamos um trio. Escrever a seis mãos seria uma experiência relevante (na minha percepção inicial). Acreditava naquele ditado popular que fala: “duas cabeças pensam melhor que uma”.

Começamos a divagar sobre os possíveis temas abordados. Sugeri um recorte no qual falaríamos de instituições beneficentes que cuidasse de crianças com deficiência física ou mental. Abordaríamos as histórias daquelas crianças (porque e como elas chegaram na instituição) e dos cuidadores (responsáveis por cuidar, como enfermeiras e educadoras, dos internos). Parecia o tema certeiro até que os problemas funcionais de conseguir depoimentos (fontes) e  imagens das respectivas crianças surgiram.

Tivemos algumas discussões sobre as dificuldades do tema até que concluímos que a Pauta, na linguagem jornalística, teria caído. E agora, o que fazer? Como fazer, que objeto estudar e para que falar dele? Eram perguntas que insistiam em aparecer nas nossas mentes.

Alguns dias depois, uma das integrantes do trio, Camila (somos um homem e duas mulheres) nos falou de um sonho premonitório. “Sonhei que escreveríamos sobre religião, eu na católica, Luiz do candomblé e Fernanda da Messiânica”. Eu, que acredito nos processos mediúnicos, afirmei de uma forma eufórica “então está certo, falaremos sobre religião, mas tentaremos falar desse tema, tão batido, de uma forma diferente”.

Estruturamos uma lista dos possíveis depoentes e começamos a capturar os áudios e vídeos. Isso sem um projeto escrito ou uma idéia totalmente fechada, em esquema organizado. Fomos recolher relatos de fé ligados às vertentes religiosas escolhidas sem uma linha editorial.

No começo tudo eram flores. Os três integrantes comprometidos, assíduos, presentes nas entrevistas. Até que as brigas, dispersões, conflitos, divergências começaram. “Você esta trabalhando menos do que eu. Seu comprometimento com o livro é quase zero”. Eram algumas frases verbalizadas em encontros de equipe. “O tempo esta passando, temos prazo”. O desespero começou a ser meu amigo mais íntimo. Fingia estar, sempre, tudo bem, sendo que por dentro minha mente gritava, alucinada com as cobranças externas, e internas (sou perfeccionista).

Foi quando o primeiro professor orientador nos pediu: “reescrevam tudo, a estrutura narrativa não está clara”. O desespero duplicou, a vontade de desistir, de mudar o tema, de fazer sozinho permearam meus pensamentos. Pensei comigo mesmo “se eu desistir estarei mostrando uma fraqueza atípica. Não posso esmorecer, entrar no desestímulo, vou persistir”. Conseguimos em seguida, reescrevendo o livro, agradar o orientador na questão narrativa, concluindo assim o primeiro capítulo do livro.

Chegava ao fim o ano letivo e algumas entrevistas tinham ficado pela metade. Era preciso concluir depoimentos, realizar apurações, mas minha equipe simplesmente desapareceu negligenciando, ao meu ver, todo um processo que tinha sido começado. Outra incógnita nos meus questionamentos. “Será que estou fazendo a coisa certa? Para que insistir nesse projeto findado a desistência mútua?” Eu me torturava mentalmente, até que relaxei e engavetei o projeto também.

Quando o ano letivo de 2010 iniciou, voltamos a nos encontrar (a equipe) e a reativar o projeto lentamente, em doses homeopáticas. Tínhamos uma nova orientadora com a postura divergente do orientador inicial.  “Será que ela gostará do projeto? Estou sentindo vibrações estranhas. Como será a forma de lecionar dela?” Eram outras perguntas que me fazia.

Algumas discussões foram travadas em sala de aula porque vi na nova orientanda uma postura muito diferente da que estava acostumado. Não concordava com alguns padrões estipulados e estabelecidos. Tinha receio da avaliação dela sobre nosso capítulo inicial.

A orientadora, por sua vez, começou a sugerir leituras de livros-reportagem que marcaram a cena literária mundial e nacional como, por exemplo, Caso Escola Base – os abusos da imprensa de Alex Ribeiro e Hiroshima de John Hersey.  Livros com abordagens e narrativas totalmente divergentes, porém complementares. Os livros estimularam em mim uma nova visão na forma de escrita.

Paralelamente, a professora orientadora leu nossa produção e nos sugeriu reescrever o texto modificando algumas coisas. Resisti a admitir uma possível mudança. A história e sequência do livro estavam tão claros, pelo menos eu achava. Na minha cabeça que era impensável mudar.

Complementando os estudos teóricos a professora montou um debate (contendo  fragmentos do livro Hiroshima) e exibiu dois filmes contendo histórias de construções narrativas diversas. Estimulou com isso minha criatividade, minha forma de costurar as idéias, de receber críticas, de tentar entender o movimento das minhas colegas de equipe, de tentar compreender a forma de pensar do outro e a velocidade com que isso acontece.

Engoli muita coisa, falei e externei muitos incômodos, tive diálogos de reflexão dos movimentos individuais e coletivos, briguei pelo livro. “Eu dou sangue nesse projeto, será que vocês não podem fazer o mesmo? De preferência na mesma intensidade e qualidade”, desabafei numa certa reunião.

Tentava organizar os pensamentos que teimavam em se desorganizar na minha mente. Queria juntar os ensinamentos que cada livro e filmes me trouxeram. Escola Base que me ensinou a importância de apurar, esperar o momento correto e divulgar uma informação fiel a realidade dos fatos apurados. Escrever é uma arma branca, a depender do intuito e do objetivo você pode enaltecer, beneficiar ou destruir a imagem e a vida de alguém. O autor de Hiroshima me mostrou maneiras de contar, com elementos visuais e sensoriais, uma história verídica, não ficcional, de numa maneira gostosa, leve, criativa, uma costura bem trabalhada deixando a leitura não cansativa. 

Nos filmes, o personagem Antonio Biá (do longa metragem, Narradores de Javé), destaco a criatividade no ato de extrair, poetizar sem perder o cunho real, factual da história, me estimulou a fazer o mesmo. Tudo isso com muita criatividade, amor e interesse pelo produto final.

No longa metragem Capote, se vê um tino, um faro jornalismo meticuloso, buscado e rigorosamente calculado, manipulado. Engendrado com a arte da escrita sedutora, rica em detalhes, fazendo com que o leitor reconstituísse o caso, o passo a passo, o quebra cabeça de uma investigação mentalmente. Um dos “erros” do jornalista investigativo, Truman Capote, foi ter se envolvido, de uma forma excessiva, com o caso, incluindo os envolvidos na cena do crime (a história do livro reportagem “A sangue frio” relata um assassinato de quatro pessoas da mesma família de uma forma brutal nos Estados Unidos).

A sequência final dos conteúdos textuais e audiovisuais trazidos pela professora orientadora foram três poemas de Manoel de Barros nos quais existiam lacunas a serem preenchidas com palavras que fizessem sentido. Exercício parecido com os das cartilhas de alfabetização que é preciso completar a palavra com vogais ou consoantes fazendo com que a criança raciocine logicamente. Só que o exercício proposto pela professora universitária era mais complexo, pois havia necessidade de entender o poema, refletir sobre ele e sugerir as possíveis palavras para encaixar, dando sentido, àquele contexto.

Os poemas de Manoel me fizeram refletir toda a minha caminhada em que estive envolvido na concepção desse livro reportagem. Quantas vezes pensei em desistir, quantos porquês me vieram a cabeça como, por exemplo: “porque eu estava no sonho de Camila? O que esse trabalho quer me ensinar? Porque trabalhar em grupo é difícil, complexo e complicado? Por que chegar a um consenso, sendo três cabeças pensantes, é quase uma guerra fria diária?”. Claro que ainda não consegui responder todas essas, e mais um milhão de  perguntas que minha mente formula por segundo, pois o processo de escrita e recolhimento de histórias ainda não chegou ao fim. E mesmo quando concluirmos o livro reportagem, acredito que não terei a resposta de um terço das perguntas formuladas, caso as perguntas até o final do processo sejam as mesmas.

Não está sendo fácil e, muitas vezes, prazeroso, realizar e concluir esse desafio. Como será nosso relacionamento e nossa posturas mentais, após a quebra de vários paradigmas e certezas abaladas, metamorfoseadas no caminhas dessa aventura? Não sei. Só sei que entrei em vários casulos (crisálidas) no decorrer da feitura do livro e rompi com todos eles me transformando em um outro ser, com asas, porém, nem sempre mais leve. Perder a vontade e o fogo da vida de tentar, de cair e levantar, de persistir não estão nos meus planos. Como diz uma reza que conheço e faço uso dela diariamente: “E se meus pés por dúvida ou pouca fé se fizerem tortos reclusos ou teimosos, que estes lamentem-se de si mesmos, pois de mim não hão de ouvir queixar […] E diante do sol de cada dia, levanto-me com a força e a destreza do guerreiro, a alegria e a inocência da criança e a esperança dos dias mutáveis”

Escrevi tudo isso porque a professora orientadora solicitou. Realmente a angústia, a irritação, o peso e a tensão associados ao fator tempo tem deixado essa caminhada penosa e árdua, com muitas agruras, mas em compensação estou recebendo tantos presentes, aprendendo tanto conversando com pessoas diferente, com vidas divergentes tendo pontos em comum. Relatos de amor, desilusão, raiva, paixão, persistência, cura e de fé que fazem com que minha fé se reestruture e fique cada vez mais firme. Confiar nesse mundo invisível ou quase transparente, que é o mundo divino, da espiritualidade, regiões paralelas que se inter-relacionam e aprendem mutuamente, é o grande desafio. Gostaria realmente de entregar essa carta desabafo a alguém. Ao final do meu livro, essa carta à qual acrescentarei elementos novos (com formato de desabafo) irá para o meu espaço virtual (blog) para que todos saibam, tomem posse dos percalços e das coisas boas que envolvem um processo criativo de um livro que trata de um assunto polêmico. Como dizem os mais velhos: “Religião não se discute” Eu comprei o desafio de discutir religião sim e pretendo publicar o livro “Fé, vidas, escolhas”, nome do meu livro reportagem num futuro próximo.

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~ por Luiz Ribeiro em 16/06/2010.

2 Respostas to “Rompendo crisálidas, processo de criação, transformação e reestruturação”

  1. Também conheço essa reza e faço uso dela diariamente… Que coincidência, Lu! rs Então, o que dizer do seu texto- desabafo? Pelo que relatou dá pra sentir que realmente não está sendo uma missão fácil, pelo contrário… Eu acredito na beleza do esforço, do trabalho, do sacrifício, da volta por cima, da caminhada com foco, da persistência, da auto- confiança, da verdade pessoal, da inteligência, do coração… Continua com fé, que vai ficar bonito! Externe a sua poesia! Abraços, Dan.

  2. Quem dera a escrita fosse fácil como era na época da infância em que brincava-se de fazer poesia, né Lulinha?! Diante tudo que você colocou só me fez admirar ainda mais essa arte. Que bom que ela tem lhe proporcionado tantos questionamentos, tantas possibilidades de quebra de paradigmas, tantas “pressões”. Acredito que a escrita não deve ser impactante e rica apenas para o leitor… essa fase pré é o que molda o escritor, é o que faz ele ser o dono da história e aceitando, negando e aprendendo com ela! Realmente escrever a três mãos deve ser algo conflituoso, mas não temos como não admitir que o aprendizado existirá na mesma proporção. No mais, só tenho que lhe desejar sorte, meu amigo, e se deleite nesse universo poderoso que a escrita lhe oferece!!!!

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