Ano novo, tudo novo?

Amigo secreto de final de ano é, para mim, uma enxurrada de hipocrisias. Sendo em família, no trabalho ou na faculdade. Não generalizando claro.

Confesso que a interação da minha família se tornou esporádica, geralmente em eventos espaçados, datas comemorativas. Claro que permiti esse afastamento, sem entender os reais motivos. Muitas vezes não sinto vontade de estar reunido e não sinto vontade de ficar ligando ou encontrando meus tios e primos. Também não sinto a vontade recíproca deles para comigo. Logo nossas intimidades mudam e o tempo faz com que uma pessoa mude seus gostos e desejos.  Então se monta algo tão intimo como amigo secreto, uma brincadeira bem humorada que te faz tentar lembrar os gostos da pessoa sorteada para comprar uma lembrança ou um presente. Com o afastamento e a perda de contato como saber o que o outro gostaria de ganhar?

“Vou perguntar a uma pessoa próxima o que fulano gosta”. Essa é uma idéia comum. Mas, eu questiono, qual o carinho colocado na compra do objeto, o que você quer proporcionar ao sorteado com aquilo?

Outro constrangimento, pelo menos para mim, é a hora de descrever o amigo secreto. “Meu amigo secreto gosta de Sol, é sempre alegre e tímido…” As vezes a pessoa não é mais nada daquilo e faz cara de paisagem para receber o presente tão esperado. Gostando ou não, culpa de uma tal educação que nos foi ensinada, dizemos “ adorei o presente, você parece que adivinhou”. Pura mentira, as vezes alguém acerta, mas na maioria das vezes a bola bate na trave.

Nesse ano, no grupo da faculdade, tive coragem de dizer um não ao convite para participar do amigo oculto. “Não quero participar porque eu odeio amigo oculto”. Olharam para minha cara com espanto como se dissessem “que mal educado. Poderia dar outra desculpa e não falar isso”.

Senti orgulho de mim mesmo por conseguir externar esse sentimento.

E após a troca de presentes geralmente vem a ceia. E junto com a comida vem aquelas orações intermináveis citando o amor, a paz a união. Aquilo me irrita. Existe um respeito pela crença dos meus parentes, mas mesmo assim me cansa, pois sei que aquilo, em uma proporção, é pura hipocrisia. Porque o sentimento de amor só uni os amigos, primos, tios, avós no final do ano? E depois da festividade, das resenhas, dos encontros, das conversas não se permanece nesse sentimento de amor?

Estava pensando numa oração que eu faria no momento da ceia. 

“Espero que momentos de união sincera aconteçam sem ter uma desculpa externa. Independente no nascimento ou morte de Cristo que consigamos amar o outro como a ti mesmo utilizando um ensinamento deixado pelos antigos. Que os olhares na roda e na mesa sejam honestos, não me tolere por algo maior, me respeite, me entenda, chegue para o outro e questione os motivos do afastamento, quando existirem, claro. Exclua o sentimento de algo interrompido ou inacabado. Fale olhando nos olhos, toque, abrace, sinta o pulsar do corpo do outro. Tapinha nas costas não é demonstração de carinho é sinal de distância e afastamento. Porque o sentimento que você tinha por fulano ou beltrano mudou? Quer falar sobre isso? Vamos eliminar as mágoas colocando os incômodos para fora, vamos buscar ser felizes agora, porque o tempo não para. Completos na nossa essencia. Que assim seja”

Minha geração esta se tornando adulta e com isso os parâmetros e os referencias mudam. O que você acredita muitas vezes muda com o passar dos anos, suas verdades se reciclam. Não sou mais aquela criança inocente e ingênua. Meus primos também já são, na maioria adultos. Cabeças mudadas, famílias e laços construídos e desfeitos. Visões de família e o simbolismos  particulares e individuais. Espero que o elo central da nossa família não quebre. Tenho receio dos próximos natais, quando nossos pais não estiverem mais aqui. Em que casa iremos nos ver? Será que alguém vai querer levar as suas famílias para esse encontro anual? Ou iremos nos trancar ou nos permitir ficar em novos núcleos familiares construídos por nós? Perguntas que não sei responder agora, mas que não custa nada começar a pensar.

Como diz a Globo “ o futuro já começou”. Feliz 2010 a todos.  

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~ por Luiz Ribeiro em 12/01/2010.

Uma resposta to “Ano novo, tudo novo?”

  1. Luiz, vc é diferente de todas as pessoas que conheço. Sua maneira de pensar e agir são únicas. Apesar de contrárias, são realistas e sinceras, e merecem uma atenção especial, pois abrem os olhos da sociedade nessa mesmice q é a vida!! Continue nos presenteando com a sua veia filosófica aqui no blog e na vida real tbm!! beijos

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