Nada mais!

– Alô, amigo! Pode falar?

– Posso.

– Tive um sonho com uma entidade do candomblé. O nome dele era Exu que aparecia e sumia toda hora brincando comigo. Fazia charadas, falava em enigmas e perto de acordar ele, a entidade, mandou tomar cuidado com a saúde.

– O que eu faço?

Falou Cristina desesperada para Marcos, seu amigo de faculdade.

– Não sei como posso te ajudar. Interpretar sonhos é complicado.

– Ah! Já sei!

– Olha Cris, nunca te contei, mas eu pertenço a um terreiro de candomblé da nação ketu e acho que posso te levar no meu pai de santo para um jogo de búzios. Quem sabe esse sonho é uma premonição ou um recado de um orixá?

Marcos, que não gostava de anunciar aos quatro ventos que é de candomblé por inúmeras questões, abriu sua vida religiosa única e exclusivamente para ajudar Cristina pondo-se à disposição.

Eu só te levarei se for da sua vontade. Não tenho idéia nem previsão das coisas que podem sair no jogo de Ifá. Agora tenho que desligar. Depois nos falamos.

Cristina, mesmo com a disponibilidade de Marcos, continuou com o coração apertado, aflito e preocupado, pois não entendia o simbolismo do sonho. Ela passara por um período delicado na vida pessoal e familiar – seu pai enfrentava problemas ligados ao alcoolismo.

Após finalizar a ligação de Marcos ela imediatamente ligou para Barbara, outra amiga de faculdade e disse o mesmo texto.

– Binha, pode falar?…

Barbara por sua vez convidou Cris para assistir um culto na igreja Batista na qual congregava.

Cris marcou tanto com Marcos e com Cris um compromisso religioso no mesmo dia.

– Marcos, não vou contar a Bárbara que marquei de ir contigo num terreiro. Acho que ela não entenderia. 

– Acho que você deveria falar sim, pois ele não precisa entender. O respeito esta acima de tudo.

Cris na noite anterior do culto conta a verdade a Barbara.

Bárbara, tomada de uma super proteção, não conseguiu abrir a mente para aceitar a ida de Cris num terreiro. Imediatamente ligou para um irmão da igreja que tinha sido candomblecista e tinha uma história de mágoa com a antiga religião para fazer uma pequena palesta a Cris. O relato de fé desse irmão era que a felicidade só foi plena na vida dele quando descobriu Jesus através da Batista.

Cris, inocente, foi ao culto. Ao final da reunião Barbara levou Cris até a biblioteca da igreja na qual estava o irmão Pedro (ex candomblecista). O poder de persuasão do irmão era muito bom. A clareza do verbo e a veracidade dos fatos convenceram Cris a deixar Marcos de lado.

Marcos por sua vez esperava ansiosamente Cris ligar para ir ao terreiro.

Os momentos de espera triplicavam a angústia de Marcos que se preocupara com Cris.

– Atenda o telefone Cris. Será que aconteceu alguma coisa? O culto ficou de terminar as 11h00 – Pensava Marcos.

Cansado de esperar e extremamente irritado Marcos desiste de aguardar.

– São 14h00 e nenhum sinal de Cris. Já liguei mais de mil vezes para seu celular, mas sem sucesso e sem retorno.

Quando o relógio marcava 16h39 o celular de Marcos toca. Era Barbara, com uma desculpa esfarrapada que envolvia Cris e o suposto sumiço. Em nenhum momento Cris pega o celular de Barbara para dar um posicionamento a Marcos.

O clima entre os três amigos é de tensão e mistério. Quem estaria mentindo e  porque? – imagina Marcos tentando montar esse quebra cabeça.

– Você tem algo para me falar Bárbara? – perguntava Marcos.

– Eu não!

O que significa a palavra amizade? Como ter confiança após essa grande e desnecessária mentira? A dúvida é mais dolorosa que a certeza. Quem está mentindo. O porque do silêncio de Cris?

Dias depois Marcos encontra Barbara. Muito sabiamente após colher fragmentos de informações truncadas ele de forma indireta consegue extrair uma versão da verdade.

– Binha, você tem algo contra o candomblé?

– Tenho. Eu não gosto desse religião, pois não acredito do politeísmo. Só existe um Deus. E esse Deus é maravilhoso.

– Mas cadê o respeito pelo diferente?  Você teria coragem de falar mal de uma religião para  convencer alguém a não seguir determinada doutrina? Exaltando a sua religião e relatando negativamente contra a outra?

– Sim eu o faria.

– Mas como falar mal de algo que você não conhece na prática?

– Sabemos que o Crak é ruim mesmo sem experimentá-lo, justificou Bárbara.

Marcos sangrava por dentro com as respostas de Bárbara.  Se ela não acredita e ou respeita a crença do outro como conviver sem máscaras? Que grande hipocrisia essa relação de amizade. O que estou fazendo aqui?

– Binha eu tenho que ir agora, você me ajudou a montar um difícil quebra cabeça. Agora todas as peças se encaixam.

Marcos saia da conversa com a certeza do ocorrido na igreja Batista no dia do culto. Mesmo assim não conseguia entender o silêncio e o afastamento de Cris.

Muito tempo depois Cris convida Marcos para um bate papo num pelo parque.

– Amigo, tive vergonha dos meus atos e por isso resolvi calar e me afastar. Fui fraca e me deixei convencer. Não sabia como te falar isso. Bárbara e o irmão Pedro foram tão convincentes. Eu estava num momento tão frágil. Não conseguia raciocinar. Quando meu telefone tocava eles diziam: Não atenda Cris é a tentação do Satanás. Me desculpe. Não sabia como falar contigo e o porque da minha fraqueza.

Marcos tinham três sentimentos dividindo o seu coração. Raiva, certeza de ter sido enganado e compaixão por Cris.

– Eu coloquei minha mão á disposição para te ajudar, pois o pedido de ajuda partiu de você. Não tenho o objetivo de convencer sicrano ou beltrano a se converter, se iniciar, no candomblé. Acredito no livre arbítrio. Creio na felicidade e no bem estar. Qual é o lugar no qual irá achar essa paz espiritual só seu coração vai dizer. Não sou dono da verdade nem quero que me vejam assim.

A conversa se encerrava. Marcos tinha a sensação de trabalho cumprido, mas sabia no fundo que aquela amizade nunca mais seria a mesma. Cris e Marco se abraçaram por mais de dez minutos numa grande e dolorosa despedida.

Ao mesmo tempo que abraçava Cris Marco lembrara de uma linda e triste canção:

A minha lera quando morrer, a minha lera quando morrer. As folhas verdes quando murcham caem, aquele abraço que eu te dei foi lindo uma despedida para nunca mais.

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~ por Luiz Ribeiro em 28/11/2009.

Uma resposta to “Nada mais!”

  1. NADA MAIS E MAIS IMPORTANTYE QUE SER AMIGO
    NADA MAIS E MAIS IMPORTANTE QUE SABER RESPEITAR AS DIFERENÇAS
    NADA MAIS E MAIS IMPORTANTE QUE COMPREENDER ACEITAR E CONSIDERAR
    NADA MAIS E MAIS IMPORTANTE QUE SER HUMANO E OFEREÇER AJUDA
    NADA MAIS E MAIS IMPORTANTE QUE SABER ACEITAR UMA AJUDA
    NADA MAIS E MAIS IMPORTANTE QUE SABER VALORIZA UMA AMIZADE
    NADA MAIS E MAIS IMPORTE QUE SABER ESCUTAR
    NADA MAIS E MAIS IMPORTANTE QUE NÃO SER INTRANSIGENTE
    NADA MAIS E MAIS IMPORTANTE QUE SER SENSATO
    NADA MAIS E MAIS IMPORTANTE QUE CONVIVER
    NADA MAIS E MAIS TRISTE DO SABER QUE UMA AMIZADE TÃO VALIOZA (PODE! POIS AINDA HA TEMPO, SOMOS PESSOAS DO BEM CREIO EU), SE ACABAR DEVIDO A FALTA DE TODAS ESSAS COISAS QUE SÃO TÃO IMPORTANTE MAS QUE NOS SERES RACIONAIS NÃO SOUBEMOS COLOCAR EM PRATICA!

    PROPONHO UMA CONVERSAS …

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