De quem é a culpa?

– Fique no seu quarto e não saia de lá por nada!

– Vou sair para tentar resolver o seu problema.

– Se Deus quiser conseguirei trazer o padre Zé ainda hoje. Ele saberá o que fazer.

Me senti um prisioneiro da minha própria confissão. Se arrependimento matasse, estaria morto e sepultado. Meu mundo caiu, meus pais não me olham como uma pessoa normal, com vontades, decisões, escolhas, dúvidas. Só porque somos religiosos.

Confessar para que? Geralmente se faz isso quando se peca. Eu não sei o que esta acontecendo, mas não acho que seja pecado, mesmo que o padre afirme que tal atitude não é aceita na nossa religião.

– Porque logo comigo?

– Porque aconteceu com a minha família?

– Não sei se quero viver nessa confusão, nesse rebuliço. Tudo parece perder o sentido.

Algumas horas depois a mãe retorna a casa com o padre Zé. Atento a movimentação o menino, trancado no quarto de castigo, escutara toda a conversa dos pais com o padre.

– Precisamos curá-lo. Ele não pode ser assim. Deve ser alguma coisa ruim.

– Eu também acho padre. Ele sempre foi uma criança normal. Nunca teve nenhum indício, nenhuma pista. Como pode ser isso?

Afirmavam, em voz alta, a mãe e o pai respectivamente.

 – Ele precisa ficar em contato com um grupo jovem formado só de adolescentes meninos num internato. Com o tempo ele esquece essas idéias e vontades e tudo voltará ao normal. Agora teremos que tomar providências imediatas, pois isso é como um doença.

Convencidos da posição do padre a mãe começou a fazer as malas do filho sem levantar suspeitas. Tudo foi feito as pressas e na surdina. Ninguém poderia desconfiar do que estava acontecendo. Do que estava por vir caso o filho não fosse curado.

O casal só tivera um único filho e por isso as coisas não poderiam, nunca, sair do controle deles.

– O que as pessoas vão pensar. Que não soubemos criar nosso único filho, que somos pais ausentes e ou negligentes. Não quero nem pensar.

– Calma mulher. Ninguém saberá. Nosso filho parte amanhã de madrugada.

Após ouvir e, obrigatoriamente, concordar com todas essas decisões tomadas. O menino, tomado por certa raiva, faz algumas escolhas e comunica os amigos mais próximos. Os pais tinham trancado ele no quarto, porém não suspenderam o acesso a internet.    

Através dos software de Messenger Gabriel, o nosso personagem, combinou que os amigos interviriam nessa decisão. Todos estariam de madrugada na casa da família Silva – Sobrenome dos pais – para impedir o internato do menino. 

Na hora marcada, em silêncio e munidos de lanternas, os amigos fizeram um tipo de cerco policial e contornaram a casa de Gabriel. O show iria começar.

Quando os pais do menino abriram a porta as luzes das lanternas iluminaram o rosto dos “criminosos”.

– Ele não precisa disso!

Gritavam, em coro, os amigos. Ele é normal, não está doente, não precisa de cura.

Gabriel, por sua vez, respondera.

– Eu sou normal. Minha religião pode não aceitar ou me entender, mas acima de tudo eu tenho fé. O internato não me fará bem. Provavelmente serei torturado,farão uma lavagem cerebral em mim. Coisa que só tardará a minha descoberta.

– Tenho liberdade sobre meu corpo e minhas atitudes. Não sou mais nenhuma criança.

– Quero que me respeitem.

– Podem até me expulsar de casa. Ou me virarem as costas,mas não deixarei de ser eu mesmo para agradar um poder maior. Não estou aqui para ser a vergonha de ninguém, mas se existe amor vocês terão que aceitar a realidade. 

O menino foi ovacionado por uma grande parte dos amigos que se mostravam solidários com sua causa.

– Gostar de pessoas do mesmo sexo não tira e nem diminui a minha fé. Sou católico com amor. Não pretendo trair as leis de Deus, porém de ele fez todas as criaturas porque me fez com “defeito”? Não tenho defeito, sou perfeito.Um filho que ama e respeita seus pais, famílias e amigos. Nunca roubei, matei, estuprei, fui corrupto, desonesto. É pecado ser feliz com sua orientação sexual?

– Mãe e pai vocês podem aceitar um filho homossexual? Ou preferem que eu vá embora para não trazer a “vergonha” para a nossa família?

Mesmo tendo a certeza que se os pais escolhessem que ele saísse de casa seria um processo dolorido Gabriel fez essas duas perguntas na frente de todos.

Os pais, muito envergonhados com tudo aquilo, colocaram na balança o amor e o desafio de enfrentar os preconceitos. A mãe tomou partido do filho, já o pais foi mais resistente a decisão. Ele, o pai, pensava:

– Como meus amigos vão encarar essa novidade, como irão me olhar. Quais piadas terei que ouvir. Mas eu o amo. Que dúvida meu Deus.

Os questionamentos imagéticos do pai não duraram muito e o silêncio foi quebrado com um lindo e demorado abraço.

– Vem cá meu filhão, me dá um abraço. Seu pai te ama tanto que enfrentará tudo por ti. Desculpe seus pais, nós estávamos tentando te ajudar. Só pensávamos no seu bem.

– Fomos, na verdade, egoístas. Pensamos em nós.

– Nos desculpe.

O pai agradeceu a disponibilidade de todos os amigos de Gabriel pela demonstração de carinho. Todos voltaram para suas casas e a vida dos Silva, agora diferente, foi voltando a normalidade.

A mãe de Gabriel começou a estudar sobre a homossexualidade e o pai a tentar compreender os gostos do filho.

– Meu filho, sei que sua personalidade e seu caráter não mudarão após sua descoberta. Não importa com quem você se deita. O que importa são os sentimentos que ocupam seu coração.

Disse emocionado o pai.

Hoje o casal participa de grupos que tentam desmistificar as dificuldades e o preconceito de ter filhos homossexuais em casa.

Gabriel nesse período pensou em se matar algumas vezes achando que fazendo isso diminuiria a dor dos pais que não queriam um filho assim.

Hoje Gabriel entende um pouco mais os pais. Já os pais conseguiram, através dos grupos de apoio, modificar a visão creia homofobia que eles tinham das coisas.

Sabemos que nem todos os finais nesses casos são felizes ou simples de se resolver. Muitos meninos e meninas ainda são internados em clinicas de recuperação aos homossexuais e dão os relatos de cura. Digam não a homofobia, racismo e ou qualquer outra forma de preconceito, descriminação, desigualdade. Respeitar as diferenças é algo essencial para o convívio social.

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~ por Luiz Ribeiro em 04/11/2009.

3 Respostas to “De quem é a culpa?”

  1. Gostei muito

  2. Lindo e ótimo texto! Seria bom que todos pensassem assim… que as escolhas não mudam o caráter e personalidade dada na criação… que amar alguém como a si próprio é mandamento… e que todos somos iguais! Adorei!

  3. Infelizmente isso ainda acontece e nem todos tem um final feliz como o do personagem . Que todos realmente abram os olhos e vejam que não há motivos pra ter preconceito algum em relação a orientação sexual de um individuo seja ele quem for . Bjs Lú , ameei o post

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