Cinco dedinhos

Me chamo Maria do Carmo, minha história retrata algo comum e corriqueiro do lugar de onde moro. Talvez seja um relato chato comparado a uma imensidão de contos românticos nos quais as pessoas são sempre felizes até que a morte os separe.

Vivo, há muito tempo, lado a lado com a morte e todas as vezes que olho para a minha mão me vem o gosto da perda à boca. Perda tem gosto de fel, não é boa de saborear, mas tornou necessário aprender a conviver com esse paladar.

Cinco dedinhos, cada um com seu tamanho, seu jeito de ser, sua função. Eram cinco filhos, cinco destinos, três meninas e dois meninos, cada um com sua importância,  com uma história para contar e um caminho à trilhar.

Lembro do parto de todos. A maneira da gravidez, o formato da barriga, os enjôos, desejos, dificuldades. Quem é pobre sabe a dificuldade de ter e criar um filho. Desde o deslocamento, alimentação aos exames pré-natais, isso durante a gestação. E Após o nascimento começam outras batalhas, pois o governo não nos enxerga.

Foram muitas faxinas, muitas horas de bicos, muitos doces caseiros, muita costura e lavagens de roupas. Com isso consegui criar meus filhos de uma forma digna e honrosa. Não precisei, graças a Deus, das esmolas do Governo, não tive que mentir e ou matricular meus filhos numa escolha para receber esse benefício. As minhas vizinhas falam que é um dinheiro de graça. Me ensinaram desde muito tempo que nada é de graça. Tudo saí dos nossos bolsos.

Saber disso não faz muita diferença, pois quando você questiona ou exige seus direitos as portas se fecham e se você insistir é capaz de ir presa ou morta. As perdas muitas vezes são maiores que as conquistas. Quem anda de mãos dadas com o sofrimento sabe bem o que falo.

Andar com o sofrimento são significa que sou uma pessoa amarga ou deprimida. Sou cheia de vida e vontade de viver. Pretendo auxiliar e ajudar muita gente mais carente e ou ignorante que eu. Instruir, dar uma palavra de conforto, ser solidária.

Ainda não consigo medir, analisar e acreditar nas minhas perdas. Perdi meus filhos para a violência e para as drogas. Aqui na favela quem manda são os bandidos que mexem tráfico de drogas. A lei vigente é “o olho vê a boca cala!” Se você não seguir as regas o fumo come.     

Criei meus filhos para serem honestos, trabalhadores, estudantes. Imaginava-os doutores, engenheiros, apresentadores de TV, médicos. Hoje só me sobrou os sonhos.

Perdi um a um. Nem um enterro descente pude dar a eles, pois tudo era muito caro. E o pior de tudo foram as malditas drogas e a tentação. Não consigo entender como uma pessoa de bem se vicia em cocaína. Não entra na minha cabeça. Meus dois filhos homens morreram porque se envolveram com traficantes, consumiram muita droga, venderam e trocaram tudo que era possível de tirar aqui de casa, mas a dívida se tornou impagável e os bandidos eliminaram meus caçulas.

A minha filha mais velha foi baleada quando vinha da faculdade para casa. Não acreditei quando me disseram.

– Corre Maria, tua filha esta sangrando nas escadarias do moro. Corre mulher!

Com um aperto no coração e lágrima nos olhos corri para tentar salvar minha filha querida, mas nessas horas o tempo se torna inimigo mortal. Cada segundo aproxima você de uma despedida não desejada.

As minhas outras duas filhas morreram enquanto dormiam. Numa noite aparentemente tranqüila, no meio da madrugada se ouve passos e logo depois tiros. Pensei de imediato. Se jogue no chão Maria. Isso é que o povo da TV diz quando se esta num tiroteio. Mas infelizmente eu só pensei e continuei deitada. Foi o que aconteceu com as minha duas filhas.

As camas foram o leito de morte das duas. Os dois últimos pedaços de mim, que foram gerados no meu ventre tinham ido embora para o céu.

A quem culpar? A quem acusar? Falar pra que, morrer? Ser silenciada, torturada, humilhada! Tenho que conviver silenciosamente com a minha dor. Dor amarga, dor eterna.

Todas as vezes que olho para a minha mão lembro deles. Cinco meninos, meu Deus! Cinco destinos, cinco histórias interrompidas, cinco vidas divididas e uma mãe dilacerada.

Mas não posso desistir, pois se ainda me resta a minha vida. Farei o que for preciso para que outras mãe não passem a dor que estou convivendo. Falarei destemidamente procurando a tão almejada e escondida justiça.

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~ por Luiz Ribeiro em 30/10/2009.

5 Respostas to “Cinco dedinhos”

  1. Lindo Luiz!

  2. O q dizer depois de um relato desse? Só assimir que problemas que temos não são nada comparado a dos outros… e que temos que agradecer sempre, seja o que ocorrer seja bom ou ruim! Isso que é vontade de viver e ajudar…parabéns Lú!

  3. Texto trágico, porém lindo! Esta mulher representa as mães guerreiras deste país!! Muito bom Lu, continuo sua fã!

  4. Eita…que orgulho bê!! Apesar de longo, a cada dia insuperaveis!!Parabens…

  5. Texto maravilhoso !!! Muito interessante e que trata de um assunto que está bem de baixo do nosso nariz e nem damos muita importância . Pena que assim como Maria do Carmo exista tantas na mesma situação 😦

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