É sério?

Dizem que a vida imita a arte e vice versa, mas geralmente os casos contados ou registrados nos contos são os fatos heróicos, de amor, com o final sempre feliz. A realidade é um pouco distante do mundo perfeito e idealizado pela ótica do amor. A história muda quando se falam de direitos básicos de vida digna e de tratamento interpessoal.

Nesse fim de semana fui surpreendido com uma amiga passando mal. Estávamos em grupo e imediatamente começamos a tentar identificar a enfermidade.

Perguntavam:

– O que você tem Cris?

– O que esta sentindo?

– Fala menina!

Cris estava com cara de enterro, mal abria os olhos, não conseguia falar direito. E em forma de sussurro disse:

– Estou enjoada, minhas mãos estão formigando, o estomago dói.

Logo em seguida veio a sucessões de vômitos. Daí começou a correria. Alguns com cara de nojo ficavam indecisos de ajudar e ou correr.

– Pega água de coco fulano

Gritava meu amigo Pedro.

– Você trouxe algum remédio para enjoou?

– Será que é pressão?

– Pega noz-moscada para colocar embaixo da língua!

– Se ela não melhorar o jeito e levar ao hospital.

Uma dúvida cruel tomou conta no ambiente por milésimos de segundos. A pergunta foi entoada em coro.

– Você tem plano de saúde, Cris?

Ela respondeu gemendo.

– Que eu saiba não.

Ai meu Deus. Como seria essa aventura da vida real que até então fazia parte do nosso imaginário coletivo. Nunca nenhum de nós precisou ser atendido pelo serviço público de saúde. Mas a situação pedia um movimento dinâmico e imediato. Era se preparar psicologicamente e arriscar. Quando alguém pede socorro e precisa de ajuda há uma comoção significativa. Não dá tempo de pensar direito. Você só pensa em salvar a pessoa para findar aquele sofrimento.

Saí eu, Pedro e Cris num carro, estilo Pampa, em direção ao hospital público mais próximo. Há! Um detalhe importante. Pelo enjoou e pelo atraso na menstruação imaginávamos que Cris pudesse estar grávida.

Chegando no primeiro posto de saúde fomos recebidos com um imenso não.

– Não podemos dar atendimento a ela, pela suspeita de gravidez.

Eu nervoso retruquei

– Moça é só uma suspeita. Eu faço o que com o passar mal da menina?

Ela friamente respondeu.

– Eu não posso fazer nada senhor, mas o atendimento para uma pessoa gestante é diferenciado e aqui não tem ultra som e raio X e outros equipamentos necessários para um atendimento de qualidade.

Com muito raiva respondi.

– Muito obrigado minha senhora.

Voltei para o carro para seguir em direção ao próximo posto. Entretanto, ao mesmo tempo, notei que o carro estava com a marcha dura e o pedal da embreagem estava leve demais. Pressentia que o carro pudesse quebrar, mas continuei no silêncio.

Chegando no hospital local fomos recebidos com uma fila enorme e um corredor repleto de enfermos. Tinham doente de todas as espécies espalhados em todos os cantos do hospital. Até na porta do banheiro tinha uma maca. A visão não foi boa, mas não tinha muito o que fazer. Eu e meu amigo queríamos algum atendimento para Cris que nesse hora já estava verde. Todo o percurso de carro ela só fazia gemer.

– Bom dia senhora. Como faço para alguém pegar minha amiga ali no carro com uma maca?

A mulher com tom que gozação respondeu.

– Maca? Risos. Se o senhor prestar atenção verá que o hospital esta cheio. Não temos macas disponíveis. Ela terá que esperar sentada. E olhe que a fila esta grande.

Nervosíssimo falei em voz alta.

– Minha amiga esta com suspeita de gravidez. O tempo é nosso inimigo nesse momento. E a senhora pede para esperar?

Ela calma e fria falou.

– É o seguinte, meu filho. Esse hospital aqui atende pessoas daqui e das cidades mais próximas e infelizmente não foi projetado para isso. Se você quiser e puder esperar ótimo! Caso contrário a porta esta aberta.

– Se quiser eu posso fazer a ficha dela, mas o médico esta na sala de cirurgia e vai demorar de duas a três horas.

Sem alternativa imediata pedi para Pedro fazer a ficha enquanto eu ficava ao lado de Cris. Após dez minutos perguntei ansioso.

– Alguma novidade?

Nesse meio tempo já tinha comprado umas cinco garrafinhas de água para Cris que, por sinal, gemia desesperadamente.

Vendo aquele sofrimento desesperei. E saí perguntando.

– Tem algum outro hospital aqui por perto?

Uma alma boa e caridosa disse que sim e me ensinou como chegar.

Sem pensar muito joguei Pedro no carro e partimos. O carro estava pior. Meu medo e ansiedade ampliavam-se.

No meio do caminho senti um estalo. A embreagem não respondia mais aos meus comando. Levei o carro na segunda até o hospital. Rezando para nenhum carro passar na minha frente, pois eu não poderia frear. Se o fizesse tinha o perigo do carro morrer. Nós não tínhamos dinheiro para pagar um taxi e, um outro detalhe, Cris estava acima do peso dificultando, assim, o deslocamento.

Chegamos no outro hospital após todos os sacrifícios. Falei com o Pedro.

– Veja que aqui atendem ela.

Ele desceu do carro e foi em direção a recepção da emergência. Logo depois voltou com uma cara de paisagem.

– O que foi menino.

Perguntei

– Não consegui atendimento. Disseram que com suspeita de gravidez só no hospital de onde viemos.

Coloquei as mãos na cabeça e pensei. E agora? Pedro falou assim. Se quiser ir “fechar” lá na recepção fique a vontade, eu não agüento mais.

Fui a recepção tentar solucionar.

– Estou com uma menina no carro passando muito mal. Ela esta enjoada, com as mãos formigando e não aguenta ficar em pé sozinha. Preciso de um atendimento agora!

Ela respondeu.

– Eu entendo seu lado, mas não posso fazer nada. Não temos equipamento. A única coisa que posso fazer é tirar a pressão dela, mas não adiantara.

Eu rebati.

– E vocês deixarão ela morrer no carro? Preciso de uma maca. Ela não vai resistir. E o pior, se ela estiver grávida poderá perder a criança e eu não me perdoarei. A senhora não tem sentimento?

Ela sorriu  e respondeu.

– Se a gente se emocionasse e chorasse com todos os pacientes desidrataríamos. Vimos casos desse todos os dias. Não posso fazer nada pelo senhor. Volte para o outro hospital.

Desesperado supliquei.

– Para terminar meu carro quebrou. A senhora tem duas ambulâncias ai fora. Preciso que leve minha amiga no outro hospital.

– Essas ambulâncias não podem sair daqui sem um chamado meu filho.

– Mas eu estou abrindo um chamado ao vivo aqui com a senhora. Quer ver o estado da minha amiga?

– Não posso sair daqui. Infelizmente não tenho como ajudar.

Aquela criatura tinha um cubo de gelo no lugar no coração, pensei eu. Mas insisti na ajuda mudando de tática.

– Os motoristas da ambulância estão aqui.

– Sim, estão. Eles ficam ali em cima, próximo das ambulâncias.

Fui até lá. Enquanto isso Pedro cuidava carinhosamente de Cris.

– Amigo, amigo! Vocês entendem de motor de carro? Estou com uma pessoa doente, passando mal e meu carro quebrou.

Eles não demoraram e vieram até o carro.

– É amigo, o cabo da embreagem partiu. Não tem o que fazer.

Eles olharam de perto o real estado de Cris e se sensibilizaram.

– Quer que eu leve a menina na ambulância.

– Claro! Que os deuses paguem essa boa ação do senhor.

Ele pegou a ambulância e parou do lado do carro quebrado. Eu e o Pedro carregamos Cris com muito dificuldade e a colocamos no fundo da ambulância. Ao mesmo tempo apareceu uma moça com o filho ensangüentado indo para o mesmo hospital, pois também não conseguira atendimento ali. Deixei o Pedro fazendo companhia a Cris e fiquei para tentar consertar o carro.

Era dia de domingo e quase nada funciona. Uma alma boa passou e se habilitou a ajudar. Ele olhou o motor e disse.

– É o fluído especial de freios.

Eu pensei. Esta me xingando todo.

– O senhor tem um pouco disso para me dar?

– Sim. Vou pegar.

Ele colocou o abençoado óleo e o carro voltou a funcionar. Esse processo durou duas horas em média. Tempo contato após a saída de Cris na ambulância. Enquanto isso matinha contato com Pedro através do celular.

– Como ela esta, já foi atendida?

-Ainda não, mas esta perto. Afirmou a atendente. Diz ela que logo depois que saímos chamaram Cris.

– Vou desligar, chamaram o nome dela. Vamos torcer.

Voltando ao carro. Assim que consertado fui direto ao Hospital geral local. Quando cheguei Cris estava sentada na recepção da emergência, mas o rosto estava vivo, e ativo. Aquela imagem mórbida tinha abandonado minha amiga.

– Você esta melhor? O que fizeram contigo?

– Me deram dois remédios na veia, um para enjoou e outro para o estômago, fizeram exame de toque e tiraram meu sangue. Estou aguardando o resultado.

Já eram quase 15h00. De repente chamaram o nome dela pelo auto falante. Ela entrou no hospital. Com isso ficamos na recepção esperando. Quando deu 15h40 fui atrás dela.

Passei por corredores apertados cheios de macas, cadeiras de rodas, pessoas enfermas e seus acompanhantes. Ambientes sem refrigeração. As pessoas se abanavam e abanavam os doentes. Foi quando encontrei Cris sentada numa enfermaria com várias cadeiras nas quais as pessoas sentavam-se para tomas soro, na veia, remédios intravenosos, tomar nebulização, entre outros. As pessoas dividiam o espaço com cinco macas (leitos improvisados), ocupados, por sinal. O chão da enfermaria estava imundo. Imaginei uma questão extremamente discutida – a infecção hospitalar. Parecia que ali a prevenção e os cuidados eram inexistentes. sus

Perguntei a Cris.

– O que espera?

– O resultado do meu exame. Quero sair logo daqui Carlos.

– Perguntou a alguém quando sairá?

– Perguntei, mas me sinto invisível diante de tanta gente.

– Você lembra quem foi a médica que te atendeu?

– Lembro.

Fomos trás da médica. Quando chegamos na porta do consultório a enfermeira estava saindo com os exames dele exatamente para chamá-la. Fiquei do lado de fora, pois algo poderia ser dito La dentro que eu não pudesse ouvir (pensei).

Cris saiu da sala da médica com um semi sorriso.

– Não estou grávida. Estou com disfunção hormonal e talvez com inicio de gastrite. A médica pediu para procurar um clínico. Depois eu faço isso. Quero ir para casa.

Saímos de lá às 18h00. Sabendo e conhecendo mais sobre o mundo real. Sobre as muitas realidades existentes, as muitas agruras vividas pela população mais pobre que paga imposto para ter serviços de qualidade. Nada ali no hospital era de graça, pois tudo foi comprado e sustentado com o dinheiro público. Me senti num abatedouro. Parecia que as pessoa não tinham importância.

Fiquei com a frase que a enfermeira de disse. “Se eu fosse chorar a cada caso que aparece aqui ficaria desidratada”

Anúncios

~ por Luiz Ribeiro em 27/10/2009.

2 Respostas to “É sério?”

  1. É amigo, já vivi isso e realmente não é nada bom!!! também me senti inútil… e percebi que as pessoas que trabalham ali estão anestesiadas…infelizmente! Mas, temos que falar divulgar e gritar sim essa triste realidade e não perder a esperança que isso um dia mude! Super bj!

  2. O retrato de como a saúde publica brasileira anda bem mal! Somos obrigados a trabalhar em dobro para pagar um plano de saúde carissimo para não morrer nos corredores de um hospital… ABSURDO!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: