Que viagem…

Ônibus é um lugar de passagem, porém se constroem várias histórias sobre diversos assuntos com pessoas diferentes. Essas conversas estimulam as pessoas ao redor que, de uma certa forma, terminam interagindo e demonstrando sua opinião mesmo sem verbalizar frases concordantes ou discordantes.

Na minha ultima viagem de ônibus – moro a quarenta minutos da faculdade na qual curso Comunicação social – encontrei um antigo amigo que não via a muito tempo. Ele estava extremamente triste, encolhido num canto e chorando (aquele choro tímido que você esconde o rosto para que os outros não percebam seu momento frágil). Eu encostei lentamente, sentando na cadeira ao lado. Quando ele me viu algo mudou naquele choro. Um abraço surgiu e seu semblante se alterou. Seu choro agora era mais forte e alto. Quando eu percebi uma calmaria no soluçar e nas lágrimas tomei coragem e perguntei.

– O que aconteceu?

– Porque esta tão triste?

Ele respondeu de maneira rápida e em tom de segredo

– Minha mãe me botou para fora de casa porque eu me assumi homossexual.

Sério, retruquei! Isso é coisa do passado o discurso agora é outro. Depois da “explosão” midiática e o bombardeio de personagens gays inserido nas telenovelas e outros meios que mexem e alteram o imaginários coletivo das pessoas a coisa tomou outro rumo. Agora a moda é aceitar e afirmar que os sentimentos não se alteram por uma escolha diferenciada da opção sexual.

Meu amigo irritado respondeu com uma pergunta.

– Você acha realmente que é opção? Se fosse eu não escolheria ser uma “bichinha qua qua”. Sabemos que existem várias categorias de homossexuais. E essas nomenclaturas surgem no próprio meio. Temos as durinhos e discretos, os malhados, os ursos, as passivas, as bichas pão com ovo, as quase travas, etc. Uma separação preconceituosa e uma discriminação de dentro para fora.

– Sou assim! Adoro vestir calcinha, usar maquiagem, vestir-me como uma menina, mesmo sem querer ser uma. Não acho que nasci no corpo errado. Só sinto que os meus desejos vão de encontro ao da grande maioria.

– Por isso me chamam de louco e tentam me tirar de cena a qualquer custo. Minha mãe foi mais uma. E isso doi.

– Moro hoje com uma amiga que me acolheu, mas não me sinto feliz. Tem momentos que desejo sumir, entrar num portal sem volta no qual não precisasse dar satisfação, me enquadrar num padrão que machuca os seres diferentes que não se encaixam num formato pré estabelecido.

Eu continuava ouvindo atentamente meu amigo reparando ao mesmo tempo o comportamento das pessoas ao meu redor e o caminho, pois quando me empolgo numa conversa as vezes perco meu ponto. Os semblantes eram diversos. Tinham aqueles que viravam o rosto, outros torciam a boca, poucas pessoas se emocionaram. Quando ele, meu amigo, terminou de falar dei meu posicionamento em relação a situação.

– Nossa sociedade ainda é machista. Sua mãe não aprendeu a respeitar as diferenças e se aprendeu ensinaram a ela a fazer isso só com os outros. Aquela frase que diz que pimenta nos olhos dos outros é refresco e no da gente arde. Mais ou menos isso. Ela não criou você para ser homossexual. Também concordo que não seja uma opção e sim uma orientação como estão dizendo agora. E olhe que muita coisa já é aceita. Antes interpretavam a homossexualidade como doença, distúrbio psicológico, alteração de personalidade, processo demoníaco, coisa do mal. Hoje a coisa é diferente, pois já existe um estudo mais preciso, mas difundido. Mesmo assim conheço muitas pessoas que respeitam e convivem com gays, mas afirmam que preferem um filho ladrão do que um filho “viado”. Como diz um amigo meu.

– Aceito o filho gay dos outros, mas não quero isso para mim. Meu filho é bit Bull.

Eu conclui a conversa, pois meu ponto vinha chegando e disse:

– Não fique assim, pois suas lágrimas não vão modificar as coisas. Tente das maneiras mais inteligentes a reverter a visão preconceituosa de sua mãe. Ela, se o amor for verdadeiro e forte, aceitará. Você, independente de como se porte ou quem se deite, é uma pessoa iluminada e maravilhosa. Nunca vi você desejando o mal a ninguém.

– Siga em frente, sem esmorecer e ou baixar a cabeça. Se cuida!

Meu ponto chegou e eu desci. Nessa processo ainda pude verificar a cara das pessoas que indiretamente participaram da conversa. As caras não eram das melhores. Algumas traziam letreiros virtuais dizendo – Sou preconceituoso mesmo, e daí!

O resto na minha caminhada, do ponto para casa, continuei pensando naquela situação que acabara de vivenciar. Pensava como seria o desfeche daquilo tudo, como ficaria meu amigo, quando o encontraria novamente para saber do caso, enfim.

Por isso resolvi registrar essa história aqui no blog. Espero tornar casos do tipo públicos para que se conheça a outra fase do preconceito e como as pessoas alvos desse sentimento se sentem. Faço questão de lembrar também que na cartilha dos direitos humanos não se discrimina cor, etnia, condições financeiras ou opção sexual. Somos seres humanos nascidos de um ventre e depositados quando mortos na terra. Pensem nisso

Legenda:

Bicinha qua qua = homossexual extremamente feminino e extravagante. Pode ser pode ou rico.

Bichinha pão com ovo = homossexual pobre e básico. Geralmente afeminado

Segue abaixo o endereço de um site com algumas descrições dos tipos de homossexuais ou bichas como o próprio site afirma. Algumas características estão com certo tom de humor e ou exagero, ou um pouco satirizadas, mas vale a pena ver como o próprio homossexual cataloga os outros ao seu redor. Blog Pigatto

Anúncios

~ por Luiz Ribeiro em 22/10/2009.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: