Bahia terra da felicidade

Você já foi à Bahia, nega? Não? Então vá! Quem vai ao Bonfim, minha nega nunca mais quer voltar. Muita sorte teve, muita sorte tem, muita sorte terá. […] Lá tem vatapá, lá tem caruru, Lá tem mungunzá, Se quiser sambar, então vá! (Dorival Caymmi).

Sincretismo, praia, bunda, danças sensuais, ignorância, preguiça, moleza, burrice, sotaque cantado são alguns estereótipos adicionados erroneamente a Bahia. Imagens pejorativas, com algum motivo camuflado historicamente, estão enraizadas ratificadas constantemente pelos estados do Sul e Sudeste.  Mas por quê? Para essa pergunta não existe uma resposta tão clara e objetiva. Por várias vezes tentei localizar fragmentos tangíveis historicamente, porém sem sucesso.

Entretanto o Brasil foi “descoberto” aqui. Uma das primeiras formas de produção, agricultura, de exportação se extraiu daqui. Já fomos capital brasileira. Os primeiros choques culturais iniciaram entre índios e portugueses. O sincretismo religioso praticamente nasceu nas terras baianas, onde até hoje se inveja a magia emanada dos seus santos e encantos. Terra agraciada pelo mar, com lindas praias paradisíacas.

Como poetiza Vinicius de Moraes numa de suas canções. “Um velho calção de banho, o dia pra vadiar, um mar que não tem tamanho e um arco-íris no ar […] Sentir preguiça no corpo e numa esteira de vime beber uma água de coco é bom. Passar uma tarde em Itapuã ao sol que arde em Itapuã. Ouvindo o mar de Itapuã, falar de amor em Itapuã”. Os compositores inebriados com a magia local, da vista ao povo, reproduziram o ambiente em forma de canção e influenciaram, direta ou indiretamente, a criar uma imagem atípica da população e dos costumes.

“Triste Bahia, oh, quão dessemelhante estás e estou do nosso antigo estado pobre te vejo a ti, tu a mim empenhado”, protesta Caetano Veloso. Se baiano fosse preguiçoso e quisesse vida fácil porque será que houve e ainda há êxodo populacional com destino para os estados do Sul e ou Sudeste. O discurso corriqueiro utilizado pelos emigrantes é mudar em busca de melhores condições de vida – sonho, vida digna, melhores oportunidades de empregos, disponibilidade de acolhimento espacial, etc. No Estado baiano existe uma discrepância social. São muitos pobres, miseráveis, desempregados, desmotivados, convivendo com uma elite ou classe média minoritária, equivalentes megalópoles com estrangulamento populacional.

Somos exportadores de ícones culturais (música, artes plástica, escritoras, compositores, danças, etc.), a Bahia é idealizada e comercializada como um fragmento do paraíso na terra. Contribuímos, uma parcela significativa, com o mercado turístico nacional e internacional. Entretenimento é uma especialidade nossa que, por sua vez, fazemos muito bem tento como público consumidor, além dos baianos, turistas do Sul e Sudeste que compram nossas festas e nossa cultura – pacotes focados em diversão. Temos muitos empresários ativos, em diversas áreas, no mercado de produção de bens e serviços. E, na maioria das vezes, fazemos tudo isso com organização e entusiasmo invejáveis, presente nas produções artística.

Meu achismo, pois ainda não tenho fundamentação teórica, acredita que o real sentimento dos outros estados é inveja. Num fragmento do documentário nacional “Sou feia, mas tô na moda” – falando da realidade atual do Funk carioca, existem passagens que as Fankeiras e produtores do ritmo carioca, tão sensuais e ou “vulgares” quanto as baianas, alegam da iniciativa da dança baiana mesclada com elementos sensuais e sexuais. Existe a firmação que diz “se eles podem porque nós não podemos?”. Quantos grupos e artistas cantaram, escreveram e fixaram moradia aqui na Bahia. Cantores baianos são sinônimo de alegria. Os versos simples, repetitivos e as vezes sem “conteúdo erudito” marcam e fazem história competindo com outros ritmos conservadores. Entretanto se criam uma generalização do estereótipos desses artistas. Quando se anuncia, num programa de rádio ou TV um cantor baiano acredita-se que ela cantará axé.

Com essa imagem negativa, construída propositadamente através do tempo, se excluí dedicações governamentais, movimentos de auxílios, focos de projetos sociais, incentivos culturais entre outros. Tratam a Bahia, o restante do Nordeste e Norte como um peso, um estorvo, regiões economicamente não ativa para o restante do Brasil (Sul, Sudeste). Já houve um movimento separatista no qual os estados do Sul e Sudeste formariam um país a parte.

Definitivamente fica complicado identificar os pontos frágeis e os verdadeiros motivos que transformaram a imagem da Bahia e sua população perante o país. Seria necessário uma reportagem aprofundada, fundamentada nas ciências sociais (antropologia, sociologia, psicologia, filosofia, semiótica, etc.). Talvez assim possamos mapear esses índices e metamorfoseá-los. Preconceito, descriminação, não aceitação, desvalorização de uma cultura e seu povo. As primeiras misturas genéticas ocorreram aqui, como e porque virar as costas para o passado, descendência origem?

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~ por Luiz Ribeiro em 02/10/2009.

2 Respostas to “Bahia terra da felicidade”

  1. Amigo,

    Ao ler esse texto maravilhoso, perfeito e real, fui me arrepiando em cada parágrafo!!! Vc simplesmente ficou “cheio de graça” ao escrevê-lo!
    Parabéns e estou divulgando seus textos e blogs ta?

  2. É difícil comentar em poucas linhas, um texto e um assunto tão profundos como este teu post. Mas só posso dizer que realmente o nordeste como um todo deve exigir mais respeito. É nós baianos, somos verdadeiramente “arretados”, mas precisamos realmente acreditar nisto.

    Abraços.

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