“Vocês sabem tudo sobre mentiras?”

“Não tem mais inocente, tem esperto ao contrário” (ESTAMIRA)

“Todos mentem! Existem mentiras brancas, cinzas e negras” (Off do filme FUGA).

As mentiras brancas, quando utilizadas, são de pequena proporção, como dizem as pessoas, mentirinhas. Fatos necessários para o convívio social como, por exemplo, mandar outra pessoa atender seu telefone e dizer que você saiu; ou quando um amigo, conhecido ou colega, pede opinião numa coisa e você se sente forçado a elogiar, mesmo tendo achado horrível; ser educado ou sensível com alguém que você detesta; falar que tem um compromisso quando na verdade você não quer falar com determinada pessoa, etc.

As mentiras cinzas já tem um peso maior. Elas modificam a veracidade de fatos que extrapolam sua área de atuação, manipulação. Fatos que incluem terceiros. Mesmo assim mais amenas que as mentiras negras.

Já as mentiras negras ocupam escalas gigantescas. É quando se envolve um grupo no fato falso, com ou sem a permissão coletiva. Criam-se prisões virtuais, ilusórias, holográficas sustentadas em mentiras. Tudo é mentira, sua vida, seus atos, seus sentimentos. A psicopatia e a esquizofrenia trazem esse elemento em funções, fragmentos, índices diferenciados. Principalmente o psicopata utiliza a mentira para ludibriar todos ao seu redor, fingindo carinho, estimulando uma abertura e confiança, necessárias para alcançar seus metas e objetivos. Eles não sentem pena, dó, piedade, após um ato de maldade, não generalizando, claro.

Como identificar quais mentiras, brancas, cinzas ou negras, estão sendo contadas? Como definir mentira? Como definir verdade? – Não há uma definição formatada ou limitada de verdade, logo não existe algo semelhante para mentira. Afirma-se que uma é o oposto da outra. Como sistema de compensação as duas realidades, mentira e verdade, andam juntas complementando-se. A diferença e a escolha são tomas na mente, no discernimento dos envolvidos.

Eu também minto e catalogo minhas mentiras como as brancas, mas não me sinto preparado para lidar com a mentira alheia. Contraditório, não! Quem mente determina, modifica, transforma e limita a informação que o outro terá. Exige uma trabalho de interpretação do emissor resolvendo pelo outro como será aceito sua, restringindo sua reação final. “Isso eu posso contar porque fulano não ficará magoado; isso não posso contar nunca, pois ele(a) não aceitaria. Manipulo mesmo, mas faço isso para sustentar nossa relação, pois amo meu companheiro(a)”, afirma Fernanda Souza, nome fictício.

Somos seres falhos em relação a memória e mentir é sempre um risco. Você, muitas vezes, tropeça na própria mentira. Quem geralmente registra determinados deslizes são pessoas atentas aos detalhes (dos micros aos macros), que montam quebras-cabeças quando se sentem desconfiadas ou, simplesmente, agem assim como hábito corriqueiro. Eu falava a uma amiga que entrava, vez em quando, em contradição que “minha arma contra ela era minha memória detalhista. Numa oportunidade você diz isso e agora esta dizendo aquilo. Porque não fala a verdade por mais que ela me machuque?”

Chega um ponto que o acumulo de inverdades ultrapassa o limite reconhecendo assim uma relação alicerçada em mentiras. “Era tudo mentira! Tudo o que te disseram para te calar, te apaziguar, te prender, te domar. Tudo o que disseram porque era mais fácil. Todas as dores de cabeça, conflitos e verdades evitadas. Todas as passadas de mão na cabeça, as pequenas concessões disfarçadas em grandes recompensas, todos os truques baratos que desviaram seu olhar, te adestrando, te fazendo feliz com as migalhas, com o cantinho da sala, com o trapo velho, com as orelhas cortadas”. (FERNANDES, 2008)

Seria hipocrisia da minha parte afirmar que uma legiões de “Super sinceros” – como no programa encenando por Luiz Fernando no qual ele praticava a verdade nua e crua acumulando inimigos e ou pessoas que se afastavam – seriam aceitáveis na nossa sociedade. Mas ainda tenho esperança de ver relações mais sinceras, verdadeiras, nas quais possamos nos entregar por completo sem restrições, sem desconfianças, sem o pé atrás. Uma certa vez fiz uma afirmação a um grande amigo. Disse que um dia ele se decepcionaria comigo, pois em algum momento minhas atitudes fugiriam da estrutura formulada por ele. Em alguma oportunidade aquele estereótipo se quebraria, pois eu não sou uma pessoa estática no mundo em relação a comportamento, pensamentos, ideais, posicionamento perante a vida. Meu amigo ficou sem entender o porquê da afirmação, mas eu sabia perfeitamente o real motivo.

Tenho outro amigo que utilizava de mentiras para pregar peças. Um belo dia quando ele precisou de ajuda, mas todos acharam que era mentira e ignoraram. Mesmo assim, após o susto, ele continua a contar mentiras. Me pergunto até que ponto é saudável utilizar mentiras?

Num grupo de estudos, do qual faço parte, discutimos “expectativas” e durante o bate papo surgiram histórias de decepções, pois se esperava um comportamento de fulano que não aconteceu. Criar expectativas é algo saudável até certo ponto. Sustentar seus sonhos e relações sobre bases de expectativas é dar um salto no vazio e esperar bater no fundo invisível.

Escrevendo sobre tudo isso me vieram ditados populares que auxiliaram na nossa educação. “mentira tem perna curta”; “bom gato, bom rato”; “santinha do pau oco”; “águas passadas não movem moinhos”; “O mal do esperto é achar que todo mundo é besta” entre outros.

Quando gostamos muito de pessoas que mentem, o que fazer? Eu aceito da maneira que elas são, mas afirmar que existe confiança em tudo que é dito seria mentira! A confiança fica estremecida. Certa vez falei para uma amiga minha que “a certeza é menos dolorosa e angustiante que a dúvida”. Você questiona se o amor que a pessoa diz que sente é verdadeiro? Quando a pessoa me conta uma história, até que ponto acreditar? Será que ele(a) é fiel? Tenho um amigo assim que sofre de um distúrbio psicológico compulsivo utilizando mentiras para tudo. A realidade dele só existe na cabeça dele. Tudo é mentira. Suas posses, seu nível de escolaridade, seu cargo profissional, etc. Quando descobri a verdade meu mundo caiu, pois ele era meu melhor amigo, a pessoa que eu confidenciava tudo, íamos para todos os lugares e com quem sempre me senti bem. Hoje, nossa relação esta abalada, mas continuo gostando dele intensamente. Só que a forma do meu carinho se transformou em amor incondicional. Não espero devolução ou algo em troca. Quando estamos juntos minha atenção, meus ouvidos e olhos, meu carinho e cuidado são dele, mas a confiança no verbo dele não existe mais.
Mas como dizer a verdade sem machucar o outro? De que forma dizer? É realmente necessário contar nossos defeitos? Como manter essa máscara?

Fico imaginando o quão difícil deve ser sustentar uma mentira individual e ou coletiva, olhar dentro dos olhos de outra pessoa e contar algo como se fosse confiável sem ser. As pessoas fogem do ângulo da visão alheia para não transparecer desonestidade. Como essas pessoas conseguem dormir tranqüilas? O que se passa na mente de um mentiroso compulsivo?

“Era tudo mentira, e você não viu por que não quis. Um dia, verá. Se viver até lá”.

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~ por Luiz Ribeiro em 20/09/2009.

2 Respostas to ““Vocês sabem tudo sobre mentiras?””

  1. Também tenho minhas dúvidas em relação aos mentirosos de plantão… O que sei é: não sentem remorso, insegurança ou vergonha, ou seja, gostam de sentir a adrenalina de colar uma falácia nos idiotas que se imaginam seus amigos. Sou extremamente contra a mentira e me nego fazer uso dela, a menos que perceba – e isso não é impossível – que a pessoa prefere ouvir uma mentira agradável ao invés da verdade, às vezes cruel. Eu prefiro a verdade sempre, por mais ordinária que seja. Já abri mão de amores (?) e grandes amizades (???) por causa de mentiras “brancas, cinzas, azuis, rosas e negras”… Para mim a falsidade tem sempre a mesma cor (encardida), o mesmo sabor (desagradável) e sempre resulta em profunda decepção e descrença.
    Só lamento a existência de gente assim.

  2. Amigo…esse texto é muito versadeiro…vc parece que adivinha, pois acabei de passar por uma situação super desagradável…preciso até conversar com vc sobre, para saber a sua opinião…é bem o que vc relata nesse post!!
    Concordo com o a Celia Mota diz”…a falsidade tem sempre a mesma cor encardida…”
    Saudades…
    Super beijo!!!

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